
A curitibana Tessalia Serighelli de Castro tem 21 anos (22 a partir do próximo dia 11), uma filha (Tina, 3 anos) e uma conta com mais de 12 mil seguidores no Twitter, o que a coloca entre os 10 brasileiros mais populares na ferramenta. Se você tem um perfil por lá, é possível que, nas últimas três semanas, tenha recebido o e-mail “@twittess is now following you on Twitter” em sua caixa de entrada.
Tessalia passou a usar o Twitter com mais afinco há pouco tempo. Quase ninguém a conhecia. Mas, desde 13 de março, ela tem adicionado centenas de perfis por dia ao seu perfil. Ela conta que, no começo, fez o serviço na mão. Depois, passou a experimentar “aplicativos” que fazem o trabalho sozinho (como este script criado por Danilo Salles).
Sair adicionando centenas de perfis a esmo não é uma estratégia nova para ganhar popularidade rápida no Twitter. Mas, no caso de Tessalia, a tática parecia ainda mais pensada: a foto do perfil revela uma mulher jovem e inegavelmente atraente; o background é trabalhado; a esmagadora maioria dos updates são replies (um verdadeiro tweetchat) e aqueles que não os são contêm links para vídeos ou notícias curiosas e amenidades.
Em cerca de três semanas, Tessalia conseguiu mais seguidores que Kibe Loco, quase o mesmo que Rosana Hermann (que tem experimentado o script de Danillo Salles e escreveu a respeito em seu blog) e um pouco menos do que o humorista Danilo Gentili. O número de pessoas que ela segue é superior ao número de pessoas que a seguem (diferença de 1000, aproximadamente; o que, óbvio, indica que nem todo mundo caiu na tática).
(Os dados servem só para o domingo, 5 de abril de 2009 - os números devem mudar rapidamente)
Em sua descrição, ela diz que passa 18 horas por dia online. Tessalia trabalha em uma agência de publicidade, cria uma filha e, ainda assim, twitta freneticamente. Sua popularidade foi conquistada tão rapidamente, e de maneira tão “artificial” (aspas, por favor), que suspeitar da veracidade de seu perfil parece ordem.
Seria uma ação para um especial “ninfeta nerd” da Playboy? A introdução de uma nova apresentadora da MTV? Um experimento de algum analista de social media brincalhão que conhece pouco de Twittiqueta? Um marmanjo peludo com muito tempo livre, que se aproveitou de fotos e perfis no Facebook e Linkedin de uma Tessalia “real”?
Neste domingo (5), no Twitter, perguntei se Tessalia toparia uma entrevista (aqui). Antes, havia ironizado – com alguma grosseria, assumo – a natureza do perfil da garota. Pedi uma entrevista com vídeo. Alguns replies depois, Tessalia me adicionou no GTalk.
Tessalia: Olá. Está ocupado agora?
Diego: Oi, Tessalia. Estou um pouco, mas podemos falar.
T: Tem alguma coisa que eu posso te responder, sem ser em vídeo?
Diego: Talvez. Mas é claro que o vídeo responderia milhares de perguntas de uma vez só.
Por que você não quer abrir a câmera?
Tessalia: Estou de pijama, com o cabelo molhado, comendo macarrão em cima do Mac ;D
Mesmo assim, engatamos um papo logo depois. A íntegra da conversa está aí:
Você é de Curitiba?
Sou sim.
É que no seu perfil no Facebook eu vi São Paulo…
Pois é. Eu mudei de cidade três vezes nos últimos três anos. Mas sou daqui mesmo. Morei em São Paulo no ano passado.
Estudou por aqui?
Não, eu trabalhei um pouco por aí. Com fotografia. Fiz freelas, conheci o mercado de publicidade. Gostei. Quero voltar.
Você trabalha com publicidade hoje?
Sou redatora em uma agência de publicidade,
Em que agência?
Na CS Revue.
Você se lembra de quando começou a usar o Twitter?
Olha, uma vez vi um gráfico por aí. Eu tinha entrado em março! Mas eu não lembro ao certo. Foi ano passado, quando começou a onda entre a galera de comunicação.
Mas eu não usava.
Você fala do seu gráfico do Twitter Grader? Lá dá pra ver que rola uma “explosão” no número de pessoas que você segue a partir de 13/03.
É, fui adicionando bastante gente quando “descobri” o Twitter. Bem o tipo de coisa que a galera fez quando rolou o Orkut. “Vou adicionar pra ver qual é”. Mas o máximo era dois mil. Então, fui em dois mil.
Você usou algum script pra adicionar tanta gente ao mesmo tempo?
Eu vejo todo dia aplicativo novo para Twitter. De tudo quanto é tipo. E experimento todos. Mas nem por isso sigo usando. É mais pra ver qual é, e poder contar pra galera.
E, nisso, você chegou a usar algum script?
Bom, eu não sei bem o que é um script ou não. Mas eu usei de tudo. Hahaha, parece depoimento de ex-drogado.
Mas deve ser humanamente impossível clicar em dois mil botões de ‘follow” em um dia só, não?
Ah sim. Tinha aplicativos pra seguir de volta quem segue você também, essas coisas. Mas, na verdade, do dia 13 ao dia 15, que foi quando eu adicionei os dois mil, foi na “hands” mesmo. Sigo de volta quem me segue. Isso é algo que a galera leva em consideração. @GOUP @interney e @julioyam fazem isso.
Na real, alguns deles começaram a fazer isso há pouco tempo. Uma questão que me intriga, já que antes eles tinham milhares de seguidores (mas menos do que hoje) e seguiam de volta um número bem menor de pessoas…
Mas acho que tem muita gente que faz isso. Visito muitos perfis diariamente, e tem muita gente que segue de volta. Mas não tendo uns posts legais, a galera não segue. Acho que foi inspirado em como o Twitter funciona lá fora. Pra você ter ideia, aqui enquanto conversamos na janela do GMail, tô vendo os novos seguidores. Foram 53.
Sua caixa de email deve estar dando trabalho.
Eu gosto de saber quem começa a me seguir. Tem gente de fora que segue, é legal e eles vêm falar comigo. Mas gosto de ver certinho quem tá me seguindo. Fiquei superfeliz quando o @lapena veio falar comigo. Mas tem uma coisa que eu não entendo…
O quê?
É como essa galera realmente pop tem tão pouco seguidor, e esses desconhecidos fazem tanto sucesso. O @lapena tem uns dois mil, e ele é o Hélio De La Peña! Tirando a galera do CQC, eles não têm tanta fama no Twitter. Podemos apressar o papo um pouquinho?
Claro, tudo bem.
Tenho que fazer lição de casa com minha filha…
Você tem uma filha?
Sim, a Tina. Tem 3 anos ^^ Tem foto dela no Flickr do Meadiciona do meu perfil, e eu tinha o Orkut lá também. Mas eu não uso muito. Estava ficando complicado, sabe.
Sei. E como é que você arranja tempo para passar 18 horas online twittando se tem uma filha e trabalha?
Bom, eu twitto sempre que acho alguma coisa legal, e trabalho no computador, fica mais fácil.
Não te desconcentra do trabalho?
Eu uso o TwitterFox, não desconcentra não.
E ser bastante seguida, entrar no top 10 do Brasil… Tem algum propósito maior nisso tudo?
Não, eu uso para me divertir e me informar. E assim, fico a par de como as coisas acontecem nas redes sociais, algo que me ajuda no trabalho. É divertido isso, de ter vários seguidores. È muito bom, na verdade. Se quero uma opinião, é só perguntar no Twitter, que tenho uma amostra ali. Pergunto sobre filmes, coisas de meninos, e posto o que vou achando. E tenho realmente seguidores convictos, que me dão bom dia e boa noite, e sempre respondem minhas “pesquisas”. É bem legal. Acho que se eles seguem, é porque gostam
As pessoas tendem a dar unfollow quando “experimentam” e não gostam.
Sim, também acho.
Mas você não teme ficar meio “queimada” com o fato de sair adicionando todo mundo, usando programas ou não? Muita gente encara como um tipo de spam.
Eu também “experimento” as pessoas. E continuo seguindo quem eu gosto. As pessoas têm liberdade, gostam ou não gostam. É questão de escolha. Aí vai se formando a rede de seguidores reais, mas com o tempo. Agora é tudo uma experimentação. Acho que o Twitter vai superar o Orkut. Mas aí são conversas mais filosoficas :P. Olha, eu preciso ir.
Tudo bem. A gente conversa mais depois, então.
Espero que tenha esclarecido um pouco as coisas pra você. Eu não sou fake, nem um marmanjo barbudo. Sou eu mesma nas fotos, e nunca usei nenhum programa pra postar por mim. Nem TweetLater. Eu gosto de eu mesma responder os replies.
***
Fakes ou não, o surgimento de perfis como o de Tessalia, que crescem “artificialmente” (aspas, por favor), talvez jogue lama no conceito de “meritocracia informal” atribuído ao Twitter por alguns entendidos. Talvez, para ser seguido, basta só seguir. Talvez o conteúdo dos seus tweets não seja tão importante, afinal. Talvez, o trabalho de separar o joio do trigo (ou definir o que é joio e o que é trigo) na twittosfera dificulte planos de monetização da ferramenta. Talvez, como bem disse Tessalia, o pesadelo de muitos early adopters se materialize e o Twitter realmente se transforme em um novo Orkut.
Quem quer arriscar mais previsões no olho do furacão?
Por Diego Maia | Arquivado em: Internet | Tags:, Twitter, Twittess |